Sauim-de-coleira: nosso vizinho pede socorro

Palestrante: Marcelo Gordo

Um animal que raramente briga dentro do próprio grupo, mas é arredio em relação aos intrusos. Que sofre com a redução de seu hábitat, cada vez mais reduzido pela expansão urbana e, provavelmente, até pela pressão da convivência com um “primo” distante, o saium-de-mão-dourada, hipótese levantada pelos estudiosos do assunto. Todo esse cenário aponta para um futuro incerto para o sauim-de-coleira, Saguinus bicolor, espécie ameaçada de extinção, tema da palestra ministrada pelo biólogo Marcelo Gordo.

Marcelo é graduado em Ciências Biológicas pela Universidade Estadual de Campinas, mestre em Biologia (Ecologia) pelo Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia e doutor em Zoologia pelo Museu Paraense Emílio Goeldi. Há mais de uma década estuda o comportamento desse animal, que ocorre apenas em Manaus e arredores.

“Muita a gente confunde o sauim-de-coleira com o mico-leão-dourado, mas são de ordens diferentes”, explicou para uma plateia formada por profissionais da área, pesquisadores, estudantes do ensino médio e fundamental. “Uma pesquisa de alguns anos atrás mostrou que mais da metade da população de Manaus nem sequer o conhecia”, disse Marcelo.

Segundo o pesquisador, a expansão urbana desordenada, que acarreta na redução de espaços e falta de alimento, expõe o animal a riscos de atropelamento e ataques por animais domésticos. Junta-se à caça ilegal a provável pressão por hábitat de outra espécie (o sauim-de-mão-dourada), o que gera incerteza em relação ao futuro do sauim-de-coleira. “Fizemos vários cenários em um programa de computador, denominado Vortex, mas como muitos parâmetros ainda não são conhecidos, o máximo que pudemos avançar foi na definição de vários cenários com várias hipóteses.”

Os pesquisadores sabem, por exemplo, que só a fêmea dominante procria, que o nascimento ocorre no inverno amazônico, quando a oferta de comida é mais abundante, devido à chuva, que a taxa de sobrevivência no primeiro ano é de 63%. “Mas não temos dados da taxa de sobrevivência a partir do segundo ano, por exemplo”, explicou Marcelo.

Independentemente de qualquer prognóstico, disse o cientista, os estudos apontam para várias ações no sentido de minimizar o problema. A proteção imediata dos locais de sobrevivência dos grupos, com a criação de unidades de conservação, por exemplo. Mais: recuperação da vegetação em áreas degradadas, principalmente com espécies frutíferas e oferta de suplementação alimentar aos animais, além do manejo dos grupos. “Principalmente em grupos isolados há muito tempo, certamente a reprodução está ocorrendo entre membros da mesma família, o que compromete a sobrevivência da espécie sob o ponto de vista genético”, explicou.

Ao lado da mãe e atento às explicações do pesquisador, o estudante brasiliense Heitor Felipe, de 9 anos, lembra ter visto um exemplar logo no primeiro dia que chegou a Manaus, em 2012. “Acho que a gente precisa conhecer para ajudar a proteger”, disse Felipe, que pretende seguir a carreira de oceanógrafo. “Gosto de animais e gosto do mar”, justificou. Felipe foi o ganhador de um dos brindes sorteados após o evento.

As palestras do Ciência às 7 e Meia ocorrem sempre na última quarta-feira do mês, às 19h30, no Teatro Direcional, Manauara Shopping. Estão disponíveis, ainda, no canal do Musa no Youtube.