Implementação tecnológica na Amazônia: exemplos, demandas, limites e desafios

Palestrantes: Francisco A. Caminati

Duas experiências com a tecnologia a serviço da identidade cultural e do conhecimento local em comunidades tradicionais na Amazônia. Este foi o tema do encontro com o antropólogo Francisco Caminati, doutor em Sociologia pela Unicamp.

Um dos projetos, em plena atividade desde 2008, instalou, em agosto de 2010, um laboratório de áudio e vídeo na aldeia Wederã, na Terra Indígena Pimentel Barbosa, município de Canarana (MT). Os pesquisadores do projeto também capacitaram a comunidade para manutenção e montagem dos equipamentos. A opção pelo software livre foi, antes de tudo, uma questão política, pois, além da economia de recursos, permite o acesso ao conhecimento sobre o funcionamento da tecnologia, e isso é o que queriam, dentro da ideia de “fazer funcionar para si”, “funcionar a favor”.

Segundo Caminati, a proposta era fugir do conceito atual de inclusão digital, que parte do pressuposto que a comunidade deveria ser incluída num esquema de utilização de equipamentos e software de última geração. “Essa inclusão segue os mesmo parâmetros do conceito da obsolescência, criado pela engenharia de produção para levar o usuário a trocar constantemente de equipamento. É a lógica do lucro”, explicou.

O laboratório ajudou a comunidade — de cerca de 60 pessoas — na criação de uma memória e numa educação diferenciada, na medida em que a intervenção dos pesquisadores na realização e edição dos vídeos foi a mínima possível. Os indígenas, jovens e adultos, passaram a registar, à sua própria maneira, suas histórias de vida e seus rituais. Confira no link alguns vídeos produzidos pelos indígenas do projeto.

O antropólogo citou, ainda, uma experiência ainda não implementada que também utiliza a comunicação como elemento de mobilização e benefícios para a comunidade. “Funcionar a favor”, completa Caminati, referindo-se à tecnologia. Trata-se do projeto Rádio Mundial, Redes locais, um protótipo de rede híbrida e modular de informação e comunicação, digital e analógica, através de radiofonia, radiodifusão digital e internet, na Reserva Extrativista do alto do Juruá, no Acre.

“Não deu certo — ainda”, frisou Caminati, por uma série de motivos. O projeto tem um caráter híbrido, explicou o antropólogo. “Tem a nuance econômica, social, educacional, de integração, de preservação.  Acaba sendo muita coisa e, ao mesmo tempo, nada”, brincou. Além disso, avaliou, a ausência de uma política pública para projetos de longa duração e do monitoramento do Estado na área de fronteira. A reserva localiza-se no município de Marechal Thaumaturgo e faz divisa com o Peru e mais quatro terras indígenas.