How Flies See the World
Como as moscas veem o mundo

Palestrante: Michael Dickinson

* Legendado

O olho composto não significa uma visão múltipla de um mesmo objeto. Pelo menos no que se refere à mosca-da-fruta (Drosophila melanogaster), o inseto enxerga o objeto em pequenos quadros que compõem uma única imagem, numa visão panorâmica e multicolorida. Esse foi o assunto da palestra proferida pelo professor-doutor Michael Dickinson, do departamento de Biologia da Universidade de Washington (EUA), na sede administrativa do Museu da Amazônia.

Convidado do Ciclo de Palestras do Musa, durante cerca de 40 minutos ele falou a respeito dos estudos sobre o comportamento de voo da mosca. “Ela tem um sistema de sensores extremamente sofisticado, composto por antenas, olhos e ocelos (constituídos de células fotorreceptoras), halteres (asas modificadas que funcionam como giroscópios, auxiliando no voo da mosca) e cérebro”, explicou.

Michael Dickinson, doutor pelo Departamento de Zoologia da Universidade de Washington e pós-doutor pela Universidade de Tübingen, Alemanha, discorreu, ainda sobre a evolução da visão ao longo de milhões de anos. É por volta de 500 milhões de anos o primeiro registro de um olho composto, descoberto em um fóssil de artrópodo. Criaturas aquáticas também já usavam esse sofisticado sistema de visão. “O horse shoe crab (caranguejo-ferradura, artrópode marinho que vive principalmente dentro e ao redor de águas oceânicas rasas sobre fundos de areia ou lama mole) é um exemplo de fóssil vivo”, comparou.

Estudos sobre o comportamento de voo da mosca revelaram detalhes imperceptíveis ao olho humano. Usando sofisticados equipamentos de gravação em vídeo, Dickinson e seu grupo de cientistas constataram que o primeiro momento de voo da mosca em fuga é um descontrole total. “Quando ameaçada, o cérebro emite um comando para os músculos das patas traseiras, que a impulsionam para o alto. No início, o voo é totalmente descontrolado. Só após alguns milésimos de segundo ela consegue controlar o voo”, explicou. Sem as asas, ela tem o mesmo comportamento de saltar diante de uma ameaça, completou.

Já durante a decolagem controlada, o inseto abre deliberadamente cada uma das asas e o impulso é dado pelo agitar das asas, que não possuem capacidade de regeneração. Qualquer problema influi diretamente em sua capacidade de voar, explicou o pesquisador. “Quando um pássaro perde uma ou duas penas, por exemplo, outra pena cresce e ele continua a voar da mesma forma. Mas um pedaço de asa que a mosca perde influi diretamente em toda a aerodinâmica de voo”, disse.

“Humanos e moscas compartilham uma longa história de convivência não muito amigável”, disse o pesquisador. Estudos sobre o comportamento de voo do inseto são utilizados em pesquisas nas áreas de física, matemática, neurobiologia, visão informatizada, fisiologia muscular, dentre outras.  O objetivo é elucidar o meio pelo qual o inseto realiza seus feitos aerodinâmicos e outros comportamentos, concentrando-se principalmente na função do sistema nervoso.

Os prêmios de Dickinson incluem o prêmio Sandler Larry da Genetics Society of America, o prêmio Bartholemew de Fisiologia Comparativa da Sociedade Americana de Zoólogos, a Packard Foundation Fellowship em Ciência e Engenharia, e o prêmio Quantrell de Excelência em Ensino de Graduação da Universidade de Chicago. Em 2001, foi premiado com a MacArthur Foundation Fellowship. Em 2008, foi nomeado para a Academia Americana de Artes e Ciências.

Segundo reportagem do jornal The New York Times, alguns de seus trabalhos foram financiados pelo Departamento de Defesa dos EUA. Isso porque as moscas têm um comportamento complexo sem um grande cérebro. E, claro, voam.

Dickinson veio a Manaus a convite do Musa. Na quarta-feira, 13, proferiu palestra “Neurobiologia e neurofisiologia de moscas” no auditório do Programa de Pós-Graduação de Entomologia do Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia (Inpa).