Do peixe com farinha a macarronada com frango: soberania alimentar e abastecimentodas cidades e vilas na Amazônia

Palestrante: Tatiana Schor (Ufam)

Tatiana é graduada em Economia, com mestrado em Geografia (Geografia Humana) e doutorado em Ciência Ambiental pela Universidade de São Paulo e pós-doutorado no Center for Place, Culture and Politics, Graduate Center (EUA). É SA. É professora no Departamento de Geografia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam). Coordena o Programa de Estudo e Pesquisa da Rede Urbana da Calha Solimões-Amazonas pelo Núcleo de Estudos e Pesquisas das Cidades na Amazônia Brasileira – NEPECAB. É pesquisadora dos programas de Pós-Graduação em Geografia do Departamento de Geografia e do Programa de Pós-Graduação em Ciências Ambientais e Sustentabilidade na Amazônia do Centro de Ciências do Ambiente da Ufam. Coordenou o Centro Estadual de Unidades de Conservação (CEUC) da Secretaria de Estado do Meio Ambiente e Desenvolvimento Sustentável (SDS) do Amazonas em 2012. Atuou como Secretária Adjunta de Planejamento da Secretaria de Produção Rural do Estado do Amazonas (Sepror) no período 2013-2014.

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A autora do trabalho aponta, no resumo da palestra, que as transformações e permanências nos padrões alimentares são indicativos de mudanças sociais e ambientais complexas. A passagem de uma dieta tradicional, fortemente baseada em produtos coletados, pescados, caçados, plantados ou mesmo adquiridos localmente para uma dieta de supermercado, isto é, oriunda da agroindústria regional, nacional ou mesmo internacional é um interessante indicativo do processo de modernização e urbanização.

A análise dessas mudanças permite entender processos diversificados tais como a urbanização e seus reflexos na organização social e no indivíduo, em especial no tocante à saúde e aos hábitos alimentares, aqui compreendido não somente com o que se come mas também como se come e se adquire os alimentos. Os hábitos alimentares no Brasil encontram-se em algum lugar entre as formas de obtenção “tradicional” dos alimentos para uma “dieta do supermercado”, que varia de região para região.

O tema do abastecimento na Amazônia deve ser analisado como uma questão que compreende a demanda e a oferta de alimentos nas cidades e que fatores as configuram. Referente às demandas, temos um processo de urbanização em curso com um forte componente financeiro explicitado nas diversas políticas de desenvolvimento social que transformam rapidamente os hábitos alimentares da população. No tocante a oferta, tem-se o fato de que a produção rural no Amazonas não atende a demanda das cidades, mesmo que classificadas como pequenas.

Não se tem, no Amazonas uma agroindústria que produza os itens que compõem a cesta básica brasileira ou regionalizada tornando o Amazonas fortemente dependente da produção externa. Esta dependência e o fato de que o acesso à grande maioria das cidades no estado se dá principalmente por via fluvial implica em uma complexa rede de abastecimento.

Esta rede é fortemente definida pela sazonalidade das cheias e vazantes dos rios que por sua vez implicam em diferentes distâncias para o mesmo lugar. Nesta conferência, informa a pesquisadora, “ressaltamos os elementos inovadores para a compreensão da dinâmica econômica na tríplice fronteira Brasil-Peru-Colômbia, olhando como se dá os fluxos de alimentos e de produção local e a importância destes no abastecimento das cidades na região”.

“Concluímos que no contexto de forte vulnerabilidade hidrológica, com impactos crescentes de uma nova dinâmica do sistema hidrológico amazônico, compreender as estruturas das redes urbanas de abastecimento e de produção local é imprescindível para se pensar em formas de atuação que incentivem a soberania alimentar em uma região com forte dependência de alimentos produzidos fora da região e os mais baixos índices de desenvolvimento social do Brasil”.

Segundo a palestrante, não são conclusivos os resultados apresentados, mas indicam fortemente a necessidade de se inovar tanto na pesquisa na fronteira quanto nas áreas de geografia urbana-econômica, e sua interface com a geografia do abastecimento e da saúde. Os resultados são frutos da pesquisa financiada pelo Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq).