Mãe-da-lua_site

Os urutaus, urutaís ou mães-da-lua são aves pouco conhecidas pela ciência e pela população no geral. Apesar da aparência e do mito popular, são mais aparentadas dos andorinhões e beija-flores do que das corujas. São aves de aparência e hábitos bastante peculiares: são noturnas e capturam insetos em voo com sua enorme boca; voam elegantemente durante a noite e possuem plumagem camuflada semelhante à casca das árvores que permite que fiquem praticamente invisíveis durante o dia. Enquanto houver luz do sol, os urutaus permanecem imóveis e pousados no final de um galho com o pescoço esticado, sendo quase impossível saber onde termina a árvore e começa a ave. Para permanecerem pousados por longos períodos, possuem os pés (ou tarsos) com a palma bastante desenvolvida, diferente daqueles pés magros dos passarinhos em geral. Seus grandes olhos, marrons ou amarelos, auxiliam a localização dos insetos durante a noite, e para o dia, possuem as pálpebras com pequenas dobras que lhes permitem enxergar mesmo com os olhos fechados. Têm bico pequeno e um par de dentes laterais para quebrar as asas dos insetos e cantam principalmente em noites claras com luar melodias que variam desde longos e finos assovios, cantos de várias notas melodiosas, ou um assustador grito gutural. Podem ser encontrados desde o México até o sul do Brasil, habitando desde campos abertos até densas florestas.

Em meados de novembro de 2014, um indivíduo jovem (menos de um ano) de mãe-da-lua-gigante (Nyctibius grandis) foi entregue na portaria do Musa, sem todas as penas de uma das asas, e um tanto magro para um indivíduo daquela idade. Apesar da dificuldade e total falta de conhecimento sobre como cuidar de aves desta espécie, a equipe técnica da fauna de vertebrados do Musa aceitou o desafio, amparados pelo CETAS Sauim-Castanheira (órgão que recebe a fauna apreendida em Manaus) e autorizados pelo IBAMA (órgão nacional que gerencia e autoriza temas de fauna e flora).

No close da mãe-da-lua-gigante mantida no Musa podemos reparar no tamanho dos olhos adaptados para a visão durante a noite. Seus olhos possuem uma camada no fundo dos olhos chamada tapetum lucidum (tapete ou cama de luz) que reflete a luz do ambiente no fundo dos olhos, aumentando a capacidade de formação de imagens em condições de pouca luz. Na ponta de seu pequeno bico é possível observar também a entrada de suas narinas, que apesar de grande, pouco influencia na localização das presas (foto do autor).

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Nesta foto, obtida durante a alimentação, é possível observarmos várias adaptações que esta ave possui e que a tornam tão especial. Como a ave engole suas presas inteiras e as captura durante o voo, o tamanho de sua boca é mais importante do que possuir um bico forte. Na lateral superior do pequeno bico, nas margens da boca, podemos notar uma pequena curvatura com um ponto branco, denominado de dente maxilar, é uma estrutura rígida que auxilia na quebra das asas dos insetos para que sejam engolidos. No céu da boca vemos espículas (pequenos espinhos) que assim como a parte de trás da língua óssea e em forma de “v”, auxiliam a manter os insetos presos na boca e a empurrá-los para a garganta. Nas pálpebras vemos três pequenas dobras, as chamadas “janelas” ou “olho mágico”, que por serem pequenas aberturas, permitem que a ave enxergue o que esta acontecendo no ambiente, mesmo de olhos fechados, isso porque um olho tão grande e escuro pode desmascarar o disfarce da ave enquanto estava camuflada.

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Nesta imagem podemos observar os pequenos pés que têm função apenas de sustentação e não de caça, assim como a longa cauda e asas que permitem voos acrobáticos em busca de insetos entre as árvores, desde dois metros do solo até o alto das copas das árvores, tanto nos campos como nas florestas.

A ave, ainda sem sexo conhecido, está sendo mantida em um grande recinto, vem sendo alimentada com neonatos (recém-nascidos) de camundongos de laboratório e insetos, como mariposas, besouros, grilos e cigarras. Em cerca de um mês a ave já ganhou 50 gramas (parece pouco, mas um adulto da espécie pesa cerca de 550 g.) e algumas penas da asa esquerda já começaram a nascer. Falta muito ainda a ser conhecido sobre a biologia desta espécie, assim como métodos de reabilitação em cativeiro, mas esperamos que em breve ela, ou ele, seja solto novamente na natureza e cumpra seu papel ecológico, principalmente controlando as populações de insetos noturnos que podem ser pragas agrícolas, como gafanhotos e mariposas. Venha nos fazer uma visita no Musa e peça para conhecer esse fantástico e pouco conhecido morador das florestas brasileiras.

Texto e fotos Felipe Bittioli R. Gomes / Musa • 30/12/2014