Teoria dessana sobre seres peçonhentos

e a experiência cotidiana

Palestrante: Jaime Diakara (Musa)

A origem ancestral dos seres peçonhentos na cosmologia do povo dessana
Contada por um Dessana

Algumas poucas palavras

No conhecimento dessana, os mitos são narrativas que possuem um forte componente simbólico. Como os povos da antiguidade não conseguiam explicar os fenômenos da natureza através de explicações científicas, criavam mitos com o objetivo de dar sentido as coisas do mundo. Os mitos também serviam como uma forma de passar conhecimentos e alertar as pessoas sobre perigos ou defeitos e qualidades do ser humano. Deuses, heróis e personagens sobrenaturais se misturam com fatos da realidade para dar sentido à vida e ao mundo. Mito é coisa inacreditável, que não é real. Mito e lenda caminham sempre juntos e, em geral, o mito é que dá origem à lenda.

Pũrĩrĩ Pahti – Mundo dos seres maléficos

Quando Abe (sol) ia iniciar o seu trabalho, conforme lhe havia ordenado Ʉmʉrĩ ñekʉ, ele se deu conta que existia outro ser no mundo que se chamava Õme mahsʉ, isto é, “Trovão”. Õme mahsʉ tinha uma filha mais conhecida como Pũrĩrĩ Mahsõ, isto é, “Filha de Trovão”. Õme mahsʉ e sua filha apareceram no universo através da rotação das primeiras nuvens e se transformaram em gente. Por isso, eles são também conhecidos como Imika mahsã, isto é, “Gente das Nuvens”. Por isso também, as nuvens são para Õme mahsʉcomo uma maloca. Õme mahsʉ era um ser muito perigoso para os Ʉmʉrĩ mahsã. Ele só pensava em acabar com eles, pois queria ficar como dono do universo inteiro. Ele tinha, naquele tempo, muitos poderes e tinha intenção de criar outro mundo Pũrĩrĩ Pahti. Abe não ignorava as idéias maléficas de Õme mahsʉ em relação aos Ʉmʉrĩ mahsã mas, mesmo sabendo disso, ele não soube impedir que Nekamʉ, o líder da Gente-estrela, que ele considerava como o seu irmão, se amigasse com a filha de Õme mahsʉ e ficasse com ela. De fato, Nekamʉ não estava preparado para lidar com os poderes de Õme mahsʉ e de sua filha Pũrĩrĩ Mahsõ.

Pũrĩrĩ Mahsõ – Aña Mahsõ – Mulher Maléfica – Mulher peçonhenta

O Nekamʉ amigou com a Pũrĩrĩ Mahsõ filha de Trovão, admirou-se ao ver nela uma mulher formada, completa. Com efeito, Pũrĩrĩ Mahsõ tinha todos os órgãos genitais para ter uma relação sexual. Por isso, não era preciso abrir-lhe uma vagina, como se fazia com as outras mulheres daquele tempo.  Todavia Pũrĩrĩ Mahsõ, era uma mulher linda muito perigosa. Nos seus pêlos púbicos havia insetos venenosos como escorpiões, tocandiras, aranhas e todo tipo de formigas. O seu clitóris era um dente de jararaca e o seu útero podia gestar insetos venenosos e jararacas. Mas não dava para vê-los. Todos esses insetos eram invisíveis.

Pũrĩrĩ Mahsõ,  a filha do Omẽ mahsʉ, para matar o nekamʉ, ela tinha um poder maléfico. Toda vez que Nekamʉ fazia amor com a filha de Buhpu, o clitóris da mulher picava o “pé” do seu pênis. Na hora da relação sexual, a Pũrĩrĩ Mahsõ transformava o seu clitóris em dente de jararaca. Da mesma maneira, ela colocava escorpiões, formigas, aranhas no seu monte de Vênus para picar o pênis do seu amante. Mas não dava para perceber nada.

Muitas vezes, ela fingia tirar piolhos da cabeça do seu amante, aproveitando esse momento para enfiar um pêlo púbico na nuca dele. Ela fazia isso para provocar nele dor de cabeça.

Ela o levava também para pescar nos igarapés, criava os peixes com esporões. Chegando lá, ela mostrava um tronco de paxiúba oco no fundo do igarapé, dizendo:

– Deve haver muitos peixes nessa paxiúba! Vai buscá-los para a gente comer.

De fato, havia muitos peixes, mas somente peixes com esporões.

Nekamʉ mergulhava, trazendo de volta o tronco oco de paxiúba. Tampava o tronco com as mãos para que os peixes não escapassem. Mas os peixes enfiavam os seus esporões nas mãos dele. Nekamʉ não se dava conta de nada no momento porque isso não acontecia na realidade. Tudo isso era estratagema da Filha de Omẽ mahsʉ. Pouco a pouco, todavia, ele começou a ficar amarelo e acabou por cair doente. Emagreceu muito, tinha sempre dor de cabeça e andava com o corpo todo amassado. Por fim, ele morreu.

A morte da Pũrĩrĩ Mahsõ

Abe (sol) chorou muito a morte terrível do seu irmão Nekamʉ líder do nekã mahsa e jurou vingá-lo. Ele se sentia pronto para enfrentar e vencer os poderes de Õme mahsʉ e de sua filha. Um tempo depois, Õme magõ veio falar com ele:

– Olha! Eu estou grávida do filho do seu amigo e irmão, Nekamʉ. Quem vai cuidar do meu filho?

– Eu tomarei conta da criança e você ficará como minha esposa, respondeu Abe.

Ele tinha dito isso com a idéia de vingar a morte do seu irmão Nekamʉ. A filha de Õme mahsʉ fez de conta que aceitava a decisão de Abe. Ela planejava matar Abe como havia matado Nekamʉ. Todavia, havia um pequeno problema: Abe não costumava pescar, nem caçar. Para pôr em prática o seu plano,  Pũrĩrĩ Mahsõ disse para seu marido:

– Eu estou com muita fome. Vamos apanhar bacabas no mato. O cacho de bacabas que eu vi, quando o seu irmão ainda estava vivo, deve estar maduro agora!

– Vamos lá – ele disse.

Os dois começaram a sua caminhada pelo mato. Chegando ao primeiro igarapé, ela disse:

– Aqui, no fundo desse igarapé, há um tronco oco de paxiúba. Nele costumam entrar muitos peixes. Vai tirar esses peixes para a gente comer na volta com chibé de bacabas.

– Está bem! – respondeu Abe.

Abe sabia o que iria acontecer. Por isso, antes de mergulhar na água, ele começou a se proteger. Com uma oração, ele calçou botas de pedras preciosas. Eram botas de quartzo branco, de ouro e de pedra preta. Depois, ele transformou a sua mão esquerda em pedras preciosas, em quartzo branco, em ouro e em pedra preta. Só então é que ele mergulhou para buscar o tronco de paxiúba. Tampando o tronco com a mão esquerda, ele o trouxe de volta para a superfície da água. Enquanto fazia isso, ele transformou a palma de sua outra mão, a mão direita, num cabo de enxó a fim de matar os peixes que se encontravam dentro do tronco de paxiúba. Como antes, ele o fez de pedras preciosas. Passou a despejar os peixes no chão e a matá-los, um por um, com golpes de cabo de enxó que era sua própria mão. Havia somente peixes miúdos com esporões. Depois disso, ele os recolheu dentro de um aturá que entregou em seguida para a mulher. Vendo isso, Pũrĩrĩ Mahsõ ficou muito triste e começou a chorar, percebendo que estava perdendo o seu poder com Abe. Todavia, não deixou que o marido notasse seu descontentamento.

Logo depois, os dois retomaram a sua caminhada pelo mato.

Depois de algumas horas, Abe e a sua mulher chegaram a um igarapé maior:

– Aqui também há troncos ocos de paxiúbas. Neles somente entram peixes grandes – ela disse.

A Pũrĩrĩ Mahsõ havia dito que nesses troncos de paxiúba havia peixes grandes. Isso era verdade. Todos esses peixes eram grandes e eles também tinham esporões. Abe fez como na primeira vez: matou-os todos e os entregou em seguida para a mulher, pedindo que ela os carregasse como se faz de costume.

Recebendo os peixes mortos, Pũrĩrĩ Mahsõ pensou consigo mesma:

– Você conseguiu escapar dos meus dois primeiros feitiços, mas não me escapará da próxima vez!

Eles prosseguiram a sua caminhada pelo mato. Pouco depois, Pũrĩrĩ Mahsõ parou num lugar limpo, dizendo:

– Abe! Vem perto de mim! Olha como esse lugar é limpo! É aqui que seu irmão fazia amor comigo. Chegou o momento de mostrarmos o nosso amor um ao outro!

Mas ele se negou a deitar com ela. Ela tentou convencê-lo de todas as maneiras possíveis, mas ele sempre se recusava a deitar com ela, dizendo:

– Não! nós vamos apanhar bacabas primeiro! Depois é que faremos amor!

A filha de Omẽ mahsʉ tornou a pensar consigo mesma:

– Você conseguiu me escapar outra vez, mas, digo-lhe, você não conseguirá escapar do meu último feitiço.

Continuaram a sua caminhada pelo mato. Por fim, chegaram ao lugar onde estava a bacabeira:

– Olha aqui o pé de bacabas de que eu lhe falei. Olha como o cacho de frutas está bem pretinho! Abe, vai logo subir no pé! – disse ela.

No cacho havia jararacas, escorpiões, aranhas, tocandiras, cabas e todo tipo de formigas. Antes de subir na bacabeira, Abe fez uma oração especial, cobrindo-se de um vestido de pedras preciosas. Nos pés, calçou botas de pedras preciosas e, nas mãos, colocou luvas, também elas de pedras preciosas. Assim vestido, ele começou a subir no pé de bacaba, levando consigo o cabo de enxó para cortar o cacho de bacabas. Chegando ao cacho de frutas, ele começou a matar, com uma oração, os bichos venenosos que ali se encontravam. Cortou, em seguida, o cacho de bacabas, segurando-o pela mão. Com uma oração, colocou nele o peso de todos os tipos de pedras que existem no universo. Depois disso, é que ele começou a descer devagarinho da árvore, dizendo para a mulher:

– Vem mais perto da árvore para segurar o cacho de bacabas assim que eu chegar perto do chão!

A mulher fez conforme ele havia ordenado e começou a se aproximar do pé da bacabeira. Quando faltavam uns três metros de altura para ele chegar até o pé da bacabeira, Abe jogou com toda força o cacho de frutas na barriga da filha de Õme mahsʉ, fazendo-a explodir e causando, dessa maneira, a sua morte. O útero de Pũrĩrĩ Mahsõ saiu pela sua vagina e, com ele, vários tipos de jararacas.

Abe tentou matá-las, mas algumas conseguiram fugir. São estas:

• Diasó e diakara: elas caíram nas águas do igarapé onde se esconderam. É por isso que, hoje em dia, elas vivem mais nas beiras dos igarapés.

• Moaweru wʉhʉaña, “jararaca de uarumã de sapo”: ela se escondeu dentro das águas do rio. Hoje em dia, essa jararaca costuma viver na beira dos rios.

• Sʉmenugʉaña, ”jararaca de raiz de uacum” e gʉrabe wʉaro aña, “jararaca de cú grande”: se esconderam dentro das raízes e nas folhas caídas das árvores. Hoje em dia, essas duas jararacas costumam viver nesses lugares.

• Aña dihpuru, “cabeça de jararaca”, ʉmʉanobã, “jararaca do alto” e wehko aña, “jararaca-papagaio”: subiram nas árvores que o lugar de morada delas.

Várias outras cobras venenosas conseguiram fugir. No fim, Abe arrancou o Útero Pũrĩrĩ Mahsõ e o jogou em seguida nas águas do rio.

Este se transformou então numa arraia. É por isso que, hoje em dia, a arraia é venenosa e tem grafismo da jararaca.

Na realidade, enquanto Abe estava matando Pũrĩrĩ Mahsõ assim como os peixes e as cobras venenosas que estavam saindo de sua vagina, ele estava acabando com o poder de Trovão. Este ficou somente com os poderes do trovão e do relâmpago. Depois disso, Abe abençoou a terra e amaldiçoou as jararacas que conseguiram fugir dele, levando-as a se esconderem para sempre nos lugares fechados. Finalizando o seu plano de vingança, ele se purificou tomando banho no rio e esfregando-se com a casca de sabão de selva chamado em desana dihpusiri. Assim que contam os velhos sábios dessanas.e dizem que a Pũrĩrĩ Mahsõ era Aña Mahsõ, dentro da sua barriga era cuia de geradora de seres venenosa. Para fortalecer e se defender do inimigo os dessanas, durantes rituais de festa tradicionais, usam grafismo corporal de jararaca e os usam também nas cestaria.

Ʉmũkopa – Cascavel

O Deyubari Gõãmu (Deus da Fatura). Ele a criou para se vingar do que os seus cunhados haviam feito com a sua esposa, fazendo-a ser engolida pelo matapi enquanto ela recolhia os peixes. Quando soube do fato, através da fala dos Neká Masá (Gente-Estrela) na hora de tomar kahpi (bebida típica usada para grande cerimônia tradicional, ingerida para conectar com o plano não-humano) à vontade Deyubari Gõãmu  quis vingar a mulher na hora. Por isso, ele tirou de pêlos de onças e de macacos presos nos seus cabelos e, com eles, formou o corpo de uma cobra cascavel. É uma corda que aqueles que cantam e dançam os Gapiwaya carregam nas costas. Ela fica presa na acangatara. Ele tirou em seguida o seu enfeite de canela chamado em desana Waituru e com ele fez a cabeça da cascavel. Tirou também um fio de tucum com o qual formou o dente de cobra. Por fim, com kahpi ele fez o veneno dela. Depois disso, ele enrolou a cascavel que acabara de formar no centro-maracá, chamado em desana Yegʉ (bastão ritual cerimonial) e, com ele tocou o pé do segundo e do terceiro bayá (mestre-de-dança) para mordê-los. Isto ele fez para cumprir a sua promessa na hora de tomar Kahpi à vontade. O Segundo Bayá  morreu na hora enquanto o terceiro foi salvo com as orações e remédios do mato. Depois que a jararaca mordeu os dois Bayá da maloca dos Neká Masá, Deyubari Gõãmʉ puxou-a para o seu lado, antes de pendurá-la nas suas costas. Os Neká Masá a procuraram na maloca para matá-la, mas não encontraram.

Na mesma hora, Deyubari Gõãmʉ saiu correndo da maloca dos cunhados para tentar socorrer a esposa. Na viagem de volta para a sua maloca, ele pegou o cascavel que carregava nas costas e a jogou para longe dele. Depois, ele foi até o lugar onde estava a esposa, mas não conseguiu salvá-la. Ele ficou Viúvo.

Quando ele estava dançando na maloca dos Neká Masá, a corda ficou toda banhada de suor. Por isso, ela se transformou em chuva. Depois o Deyubari Gõãmʉ amaldiçoou a humanidade escondendo peixe dentro de uma cascavél, para humanidade e ninguém comer e ficar triste junto com ele.

Assim que o Ʉmʉrĩ Mahsa manter sua crença e dizem que hoje em dia podemos encontrá-lo cascavel no tronco de árvore caído e no chão para relembrar que foi criado na terra para vingar Neká Masá, que até hoje ele não pena o ser humano e seres vivos da terra. Os povos dessana durante a festa ritual de gapiwaya e na bebida de ayawasca usam o grafismo corporal de cascavel para fortalecer, proteger e defender dos inimigos.

Aqui termina o que meu avô Kissibi que era pajé, kumu e baya, contou mito narrativa na oralidade para seu filho Diakuru pajé, kumu e baya, que é meu pai  e memorizou. E repassou pro seu filho Diakara que hoje é contada em escrita como literatura mitológica para leitores que se interessam pelo diálogo com saberes e conhecimento tradicionais do povo dessana.