Recursos genéticos vegetais: os desafios
da agricultura familiar amazônica

Palestrantes:
Lúcia Helena Pinheiro Martins
(Núcleo de Etnoecologia na Amazônia Brasileira – NETNO/FCA/UFAM)
Hiroshi Noda
(Núcleo de Estudos Rurais e Urbanos Amazônico – NERUA/CSAS/INPA)

A contínua restrição na diversidade de plantas utilizadas na alimentação humana vem sendo drasticamente acelerada nas últimas décadas. Os padrões tecnológicos da agricultura induzida pela “revolução verde”, onde prevalecem os monocultivos e uso intensivo de agrotóxicos somados à industrialização e homogeneização da dieta humana, vem acelerando o processo de empobrecimento da agrobiodiversidade e banimento das cultivares locais.

Por outro lado, a adoção em caráter internacional do patenteamento de cultivares no comércio de sementes, monitorado por meio do rastreamento de genes marcadores inseridos nas cultivares transgênicas, é uma ameaça concreta à Segurança Alimentar e aos agricultores familiares. Nesta palestra são apresentadas as análises dos resultados obtidos no estudo sobre o manejo e conservação do jerimum caboclo (Curcubita maxima) pelos agricultores familiares da Amazônia Centro-Ocidental.

As variações genéticas estimadas por meio de marcadores moleculares, magnitudes dos parâmetros genéticos de caracteres morfoagronômicos e níveis de adaptabilidade e estabilidade fenotípica evidenciaram que as formas de cultivo e manejo adotado pelos os agricultores familiares mantêm a identidades das cultivares locais/crioulas e, ao mesmo tempo, os níveis de diversidade para a garantia de adaptabilidade macroambiental. As variâncias dentro de cultivares locais confrontadas com as magnitudes das variâncias entre essas cultivares evidenciaram que, para fins de melhoramento e conservação de recursos genéticos, a amostragem dentro de populações é mais adequada quando confrontada com amostragens entre populações. As cultivares locais cultivadas e conservadas pelos agricultores familiares apresentam níveis de adaptabilidade genética e estabilidade fenotípica compatíveis com aqueles apresentados pela cultivar comercial Xingó Jacarezinho, de maior aceitação entre os agricultores locais. Em vista das mudanças climáticas globais, aceleração do processo de monopolização e redução drástica de espécies e variedades vegetais utilizadas na alimentação humana, a garantia da conservação das cultivares locais e manutenção dos recursos genéticos in situ pelos agricultores familiares é fundamental para a segurança alimentar e evolução das espécies alimentares.