Pinturas de Feliciano Lana

Texto editado a partir de narrativas de
Feliciano Lana, desana de São João
Feliciano Azevedo, tukano de São José
Miguel Azevedo, tukano de São José
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Diadoe_1

O homem dessa história era Muhipu, Gente-Estrela. Outros dizem que ele foi um poderoso deus. Ele morava no rio Uaupés, acima da comunidade Jutica. Todos os dias pegava muitos peixes. Os outros da aldeia iam pescar, mas nada conseguiam.
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Diadoe_2

Para pescar, Gente-Estrela levava seu filho, que tinha feridas no corpo, e o colocava num galho sobre o rio. A água que pingava das feridas atraía os peixes, que se acumulavam, lambendo a banha do corpo dele. Mas o pai não matava muitos peixes, pegava só o que precisava.
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Diadoe_3

Um dia, o pai foi para a roça. Ficou só o menino. “Como é que teu pai faz para trazer peixes todo dia?”, perguntou o pessoal da aldeia ao menino. Depois de descobrir, um dia, aproveitando a saída de Gente-Estrela, eles levaram o filho doente para pescar.
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Diadoe_4

Pendurado num galho, o menino ficou para atrair os peixes. Onde tem peixe, tem cobra! Sentado no galho da árvore, o menino reclamou que o pessoal estava matando muito peixe. “Vocês estão matando peixe demais!”, o menino já estava avisando a Cobra-Grande chegando.
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Diadoe_5

Com toda a velocidade, a Cobra-Grande veio e comeu o filho de Gente-Estrela. Não deu tempo de salvar o menino. Ele sumiu!
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Diadoe_6

Mais tarde, Gente-Estrela voltou da roça. O pessoal da aldeia contou pra ele toda a verdade. O pai ficou sabendo que a cobra levara seu filho. O pai do menino perguntou para onde a cobra tinha ido. Daí ele se armou de terçado, machado, uma panela de tuiuca e seguiu à procura da Cobra-Grande.
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Diadoe_7

Em certo lugar, Gente-Estrela tinha alcançado a cobra. Ele corria na frente, ia cercando pelo rio Uaupés, mas a cobra chegou e escapuliu. Ele foi correndo de novo atrás dela. Cansado de carregar tantas coisas, jogou fora a panela de tuiuca e essa panela virou uma montanha de rocha, localizada no rio Uaupés.
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Diadoe_8

A cobra prosseguiu, descendo o rio Uaupés, até sair no rio Negro. Mas Gente-Estrela não desistiu, veio correndo na frente dela, até que chegou à Fortaleza de São Gabriel. Aí fez rapidinho o cercado, colocou matapi grande e ficou esperando com a arma dele. A cobra viu que não tinha mais como escapulir. O único jeito foi entrar no matapi.
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Diadoe_9

Quando a cobra morreu, foi arrastada por Gente-Estrela pela terra para tirar suas escamas. Primeiro, Gente-Estrela tirou as escamas do meio da cobra e jogou para baixo do rio, para virar pirarucu.
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Diadoe_10

Depois tirou as escamas do rabo da cobra, miúdas, e jogou-as para cima, na direção das cabeceiras do rio Negro. Daí viraram traíras. Gente-Estrela disse: “Você comeu meu filho! Assim, também, a sua geração será comida por todas as humanidades, até o fim!”.

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Outra narrativa

Esta narrativa conta como foi inventado o primeiro matapi nos tempos da origem da Humanidade. Com ele foi capturada Diadoe, a Cobra Traíra. Morta, de suas escamas surgiram pirarucus, traíras, jejus e outros peixes desse grupo, como classificados pelos povos Tukano. Pequenas diferenças entre esta versão tukano e a versão desana (das ilustrações legendadas) mostram a vivacidade da tradição oral desses povos.

Texto editado a partir de narrativas de
Feliciano Azevedo, tukano de São José
Miguel Azevedo, tukano de São José

No princípio, na grande serra que existe ao largo do rio Traíra, havia uma cobra grande chamada Diadoe. Ela se movia também pelos rios Tiquié, Papuri e Uaupés. No Uaupés, ela comeu uma criança, filho de Muhipu, um desana mkorimasã.

Para manter seu filho, Muhipu ia na pescaria, na caçaria e andava por aí à procura de comida. Sentindo fome e dificuldade de mantê-lo, decidiu fazer no corpo do filho umas feridas que segregavam uma gordura com cheiro bom, cheiro de frutas oleosas, como jenipapo e outras que ficam na beira do rio. Em seguida, procurou arumã e fez um paneiro. Levava seu filho dentro do paneiro para não ofender as feridas. Em certo lugar na beira do rio, pendurava o paneiro num galho e deixava pingar aquela gordura na água. Com isso aparecia muito peixe, aracus, pacus e outros, e Muhipu aproveitava para flechar. Logo que matava alguns, parava, porque seu filho gritava:

— Já vem o monstro olhudo!

Durante muito tempo, pescou dessa maneira. Depois de matar uns cinco peixes, seu filho alertava que vinha vindo o monstro olhudo. Ouvindo isso, sempre o suspendia para o alto. Depois arriava de novo, matava mais alguns e voltava para casa.

Um dia, a criança estava só em casa, sentada ao lado do fogo, quando chegou Oãk. Ele perguntou por seu pai e, vendo o jirau com peixes, perguntou como ele conseguia tanto peixe. O menino respondeu que era pescando. Ele não acreditou e insistiu, pedindo que o menino explicasse direito. Com medo, o menino falou a verdade.

Ouvindo isso, Oãk levou-o no porto e pendurou-o no galho onde seu pai o deixava. Como sempre, a gordura do menino pingou na água do rio e logo começaram a chegar os peixes. Primeiro os peixes miúdos como piabas, depois peixes maiores como aracu-riscado, aracu-de-cinzas, pacu, surubins, mandubés e pirandiras. Vendo aparecer tanto peixe, começou a flechá-los, sem se preocupar. A criança gritou:

— Já vem o monstro olhudo!

Mas Oãk não atinou para os gritos do menino e continuou pescando. Ele gritou desesperado, mas a cobra o devorou. Vendo isso, Oãk correu atrás da cobra, que desceu pelo rio Uaupés, até a maloca Tucunaré. Bem no fim do estirão comeu pedras, areia, folhas, paus podres… tentando matar o menino, que conseguia se defender dentro da barriga da cobra.

Todos os Miria Põra Masã da família de Oãk ficaram desconsolados com a perda do menino. Um deles, o pica-pau, convidou outras aves para ajudá-lo a vingar-se. Com seus primos, somou forças e, juntos, diminuíram a extensão do rio, fazendo três paranás. Teceram três paris e matapis, esperaram por Diadoe. Até hoje vemos os riscos dos paris nas pedras abaixo de São Pedro do Uaupés, no local chamado Ponta Estreita.

Acabando o trabalho, Oãk deixou um vigia em cada paraná: os bem-te-vis ficaram no da direita (paraná do Cantagalo), os uirapoço no meio. Quando a cobra se aproximou, eles deram sinal. Diadoe tinha seu vigia, o pássaro pusika. Ouvindo o canto dos pássaros, a cobra recuou e transformou-se em macaco uacari (pikõturu), para ver qual o canal melhor para escapar. Assim, Oãk não teve êxito.

Diadoe abriu outro paraná. Para comer carne cozida da cobra, haviam preparado uma panela grande de barro. Vendo-a escapar, eles emborcaram essa panela, dando origem a uma serra, chamada Kiputun.

Oãk continuou sua perseguição. Foi esperar Diadoe no rio Negro, onde fez o canal que fica no morro da Fortaleza. Novamente fabricou cercado e matapi. Terminando, colocou um no estreito e um na cachoeira Curucuí. Feito isso, esperou sozinho a chegada de Diadoe. Subiu bem no alto da Serra Cancã (Akarãn) em São Gabriel e na montanha da Fortaleza e mandou que os pássaros ficassem calados. Quando a cobra apareceu no estirão, ele preparou suas armas, a lança-chocalho e o escudo.

A cobra traíra encostou-se ao cercado. Vendo que estava bem feito, tentou voltar para sair por outro lugar. Quando Oãk percebeu que a cobra tentava fugir, jogou a lança-chocalho bem na coluna dela. A cobra, assustada, tentou fugir e entrou no matapi. Dessa vez, não escapou.

Foi assim que Oãk conseguiu matá-la. Puxou seu corpo para a terra, raspou suas escamas com a ajuda da Gente do Aparecimento (Bahuarimasã) e cortou-a em pedaços. As escamas grandes, eles jogaram no sentido da foz, dando origem aos pirarucus. As escamas miúdas, do rabo, jogaram para o lado das cabeceiras, originando traíras grandes e pequenas. Os intestinos foram jogados por terra, surgindo grandes minhocas (euta ou wãsikra).

Antes disso, tinha aberto o bucho da cobra para tirar a criança, que estava quase morta. O menino estava bem protegido através de escudos. Foi levá-lo de volta à casa de seu pai, na cabeceira do Aiari, na Maloca do mkorimasã. Muhipu, vendo seu filho de volta, ficou alegre e agradeceu a Oãk.

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